quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Amor

Amor é fascinação, intimidade
Drama e ironia
É o todo partido
É o escolher ter ficado
É prosa e poesia
É sutileza e alarde
Despencar e reclinar
É preparar o chá
Aceitar o café
Amor é sobressalto, desejo
Aconchego e desalinho

domingo, 28 de agosto de 2011

Efêmera

Vou ficar mais um pouquinho,
para ver se acontece alguma coisa
nessa tarde de domingo.
Congele o tempo preu ficar devagarinho
com as coisas que eu gosto
e que eu sei que são efêmeras
e que passam perecíveis
e acabam, se despedem,
mas eu nunca me esqueço.
Tulipa Ruiz

terça-feira, 19 de abril de 2011

Danço sobre a vida e a morte. Danço sobre a tristeza e a solidão. Piso para o fundo da terra todos os males que me torturam. A dança liberta a mente das preocupações do momento. A dança é uma prece. Na dança celebro a vida enquanto aguardo a morte. Por que é que não danças?

Paulina Chiziane

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Como em tudo, no escrever também tenho uma espécie de receio de ir longe demais. Que será isso? Por quê? Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e me levar Deus sabe onde. Eu me guardo. Por que e para quê? Para que estou me poupando? Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi: "É preciso não ter medo de criar". Por que o medo? Medo de conhecer os limites de minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar? Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda.
Clarice Lispector

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Para a amiga Jú Bonat, estou com saudade.

A assimetria do círculo

_ Lúmina não gosta de arestas, nunca gostou.
_ Não entendo.
_ Troque seus óculos.
_ ...
_ Por óculos redondos, assim você a conquista. Lú detesta as quebras, os rompimentos. Gosta da volta inteira, completa.
_ Sim.
_ Escute o que te digo. Você a deseja, não?
_ Muito. Algum dia ela olhará para mim?
_ São os óculos, ângulos retos. Pelo menos seu rosto é redondo.
Fernando observa a mulher cuidadosamente, longos cabelos negros, brilhantes e bonitos como os da irmã. O que está escondido por baixo da vasta cabeleira? Imagina quem é mais louca, no entanto, gosta das idéias circulares que lhe são apresentadas. Já sonha com a cama redonda de um motel e com todas as sinuosidades do corpo feminino.
_ Leve-a para passear em noite de lua cheia, que este seja o primeiro encontro. Para nós, mulheres, há maior disponibilidade energética nesse período.
_ Sei... Falta você sugerir uma camisa de bolinhas.
_ Fica ao seu critério, não precisa se alinhar.
_ !
_ Seja claro, mas não exato e converse com suavidade esférica.
_ Mas...
_ Não a interrompa, nunca! Nada de quebras.
Sílvia continua falando, voltas e mais voltas e Fernando não a escuta mais. Pensa na intersecção de dois planos como o encontro de dois corpos: o seu e o de Lú. Problema se isso é uma aresta, deseja sua face na face da mulher e o vértice seria o ápice do momento.
_ Providencie músicas árabes e quem sabe acontece uma dança circular? Lú é excelente em dança do ventre.
Novamente a cama redonda de qualquer motel e os movimentos cadenciados atravessam seus pensamentos. Mas não poderia ser qualquer motel, Lú merece o melhor, um ambiente aconchegante, com essências aromáticas, talvez a réplica de uma tela de Salvador Dali, poderia ser Nu na água, bastante sugestiva. Não faltaria uma banheira de hidromassagem (redonda). E a cama... Molha o lábio motivado por um desejo intenso. Enquanto isso, Sílvia prossegue com seus conselhos e Fernando finge que os escuta, seu coração é redondinho, do jeito que Lú quer. Na divagação pega apenas a última frase da cunhada, sim, já poderia chamá-la de cunhada.
_ O círculo pode se reduzir a um ponto quando a distância é nula. Até mais e boa sorte!
_ Até!
Motivado pela distância nula entre ele e Lú e preferindo não contar com a sorte, nem com sua conselheira, deixa a praça, vai para casa e seleciona alguns ingredientes peculiares ao preparo de uma poção cuja função é a realização dos anseios mais íntimos. É uma noite quente e o calor aumenta na beira do fogão. Fernando surpreende-se com os movimentos lentos e circulares por ele realizados ao mexer a fórmula. Sempre no sentido horário, projetando ali toda a sua vontade. Sente um leve torpor e pensa no cheiro da mulher que se mistura ao cheiro das iguarias, lembra de quando a viu passar na rua pela primeira vez e da surpresa ao saber que a moça era irmã de uma conhecida, que por sua vez ficou bastante satisfeita com seu interesse por Lú.
_ Que bacana saber disso. Lú teve uma desilusão amorosa, por isso veio morar comigo. Ela realmente precisa de um novo amor. Que fique entre nós o que te conto agora, mas seu último companheiro tinha dupla personalidade.
_ Nossa!
_ Carlos e Roberto, sabe?
_ E de quem Lú mais gostava?
_ Do Carlos, foi por ele que Lú se apaixonou. Ela conheceu Roberto depois, super complicado.
_ ...
_ Ele achava que era leproso, mas fisicamente era super saudável.
_ Quem?
_ Roberto, o complicado. Além disso, não compreendia a atração de Lú pelas sinuosidades, pelas esferas, círculos e isso foi deixando-a irritada.
_ Que história!
_ Pois bem, no início Roberto era o alter-ego de Carlos, mas depois a situação se inverteu. Roberto e Lúmina brigavam bastante.
A suspensão do tempo, fragmentos da vida que ocupam a mente, é interrompida pelo forte cheiro do preparo que recende na casa.
_ Ainda não está pronto.
Tais fragmentos surgem novamente, agora em forma de devaneios. Como será recompor um mundo perdido, uma vivência despedaçada por um ego fragmentado? Lúmina lhe parece tão interessante que sente muito por Carlos, ou Roberto.
_ É chegada a hora!
Em um estado de latência, se benze e bebe a poção. Agora era tudo uma questão de tempo, os ponteiros do relógio fariam seu movimento circular até o momento do grande encontro. Ao redor tudo é silêncio. Pouco a pouco, uma palavra solta aqui, uma palavra solta ali, ininteligíveis e rápidas, como bolhas de sabão que estouram no ar. Tais fonemas transformam-se gradativamente em notas musicais, em acordes perfeitos suavizando sua alma. Uma leve vertigem e a música ganha cores, que variam de acordo com a melodia.
Tantas sensações tem Fernando e um só desejo, uma só forma redonda que fosse e uma só energia, ondulante de preferência. Sente que será o eixo que passa pelo centro do corpo de Lú e em volta desse corpo a rotação. Mas eis que notas emblemáticas e dissonantes anunciam um desenlace trágico e surge um pavor repentino. Queria solucionar um problema sentimental e inesperadamente energias indesejáveis apoderam-se de si. Sente dores lancinantes até o momento em que vê Lú trajando um vestido vermelho tomara-que-caia, que não lhe caia tão bem. Seu colo, isoladamente, tinha algo de constrangedor, mas o conjunto era magnífico de se ver. Pouco a pouco identifica o lugar onde ela está, entre frutas e verduras escolhendo laranjas. Todos os seus movimentos parecem uma visagem que transcorre em fotogramas cujos planos se abrem e se fecham com intensa luminosidade.
No segundo seguinte está tudo translúcido e impreciso e Fernando fica tão leve, voa nas asas de todo o bem que há no mundo. É espaço, tempo e matéria, faz parte da simetria do universo, até Lúmina surgir novamente, agora em meio à neblina e acompanhada de um rapaz. Seria Carlos ou Roberto? Vê a seda vermelha roçar discretamente o corpo feminino e tornar-se furta-cor enquanto Lúmina anda circularmente, retornando ao ponto de partida reservado aos loucos do coração. Em meio ao desconforto causado pela visão não deseja mais a cama redonda de um motel, seu simples sofá, arranhado pelas unhas de seu gato é suficiente. Fecha os olhos e procura convencer a si mesmo de que o círculo só é perfeito enquanto idéia de círculo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado